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“Escuridão” – Susana Sinhoretti

Escuridão

Sentada em frente ao mar, só vejo a escuridão. Depois de tanto evitar este momento, finalmente, aqui estou. Acho que meu medo era de não encontrar o que vim procurar. O som da água, o canto das gaivotas, a brisa que toca meu rosto, tudo isso traz recordações que, agora, só existem na minha memória.

Sentada em frente ao mar, olho mas não vejo. Lembro-me de quando via pequenas embarcações sumirem com o pôr-do-sol. Como eu gostava de admirar aquele belo espetáculo! Já não me recordo quando foi a última vez que contemplei um final de tarde avermelhado… Em meio a essa névoa que me consome, só restaram lembranças.

O cheiro do filtro solar lembrava a fragrância de mel que exalava do creme hidratante que passávamos ao voltar para casa depois da praia. O cheiro sempre atraía abelhas. Apesar do pavor que sentia ao ouvir aquele zumbido, eu adorava ver aquelas listras amarelas. Já não me recordo quando deixei de admirar aquelas listras…

Sempre apreciei a natureza. Gostava de ver as formigas trabalhando, o beija-flor alimentando–se, a aranha tecendo sua teia e, até mesmo, a concentração do louva-deus despertava minha curiosidade. Esses seres, simplesmente, desapareceram. Nem aquele verde ofuscante do louva-deus eu conseguia reconhecer. Já não me recordo quando deixei de observar a natureza… Na memória, só lembranças.

Não sei dizer quando ou como aconteceu, mas tudo que era concreto deixou de fazer parte do meu cotidiano. Só sei que não foi da noite para dia. Esse vazio consumia minha vida, lentamente. Tão lentamente que, pouco a pouco, sem perceber, tudo o que eu gostava de fazer já não fazia mais. O que era colorido transformou-se em cinza e, depois, em preto. Tudo teria sido mais difícil se eu não o tivesse conhecido naquela época. Ele me ajudou a preencher uma parte desse vazio. Mal sabia eu que esse vazio só iria aumentar.

Até os 19 anos de idade, nunca tinha visto o mar. Foi ele que me levou à praia. Quando pisei na areia, pela primeira vez, senti meus pés afundarem. Uma certa insegurança na primeira pisada e uma alegria imensa na segunda. Aquela sensação da areia entre os dedos, aquela aflição era deliciosa! Ainda lembro daquela água gelada, do gosto salgado em meus lábios e das conchinhas quebradas arranhado meus pés. Sensações que sinto, hoje, com maior intensidade, embora, não com o mesmo entusiasmo. Sentávamos em frente ao mar e eu fechava os olhos. Ele me ensinou a sentir e a ouvir o que acontecia ao redor. O som das ondas quebrando, aquele ardor dos raios solares, o som das gaivotas ao fundo, o vento zunindo, tudo transmitia paz. A mesma paz que me motivou a estar aqui, neste momento. A mesma paz que me acompanhou até a vida virar uma escuridão. A mesma paz que perdi depois que o destino o levara para sempre. Eu não tinha mais o meu guia, meu companheiro, meu motivo para continuar. Por ironia do destino, justamente o mar que ele me ensinou a amar, levou quem eu mais amava. O mar levou minha paz… O vazio que consumia minha vida ficou maior.

Era ele que me trazia luz e indicava a direção. Foi ele que me ensinou a aceitar esta condição. Sentada, aqui, em frente ao mar, eu temia por esse momento. Temia ser fraca e não resistir às lembranças. Temia não encontrar a paz que vim procurar.

Ele não está mais aqui, mas posso senti-lo ao redor. Posso senti-lo em tudo que me ensinou a apreciar antes, durante e depois que a escuridão dominou minha vida.

Sentindo tudo isso, enfim, o temor se foi… A paz voltou. Posso, por um breve momento, apenas sentir e ouvir…

Novamente, depois de muito tempo, sinto todas aquelas sensações que, no passado, sentia ao fechar os olhos. A diferença é que, agora, não preciso mais fechá-los… Sentada em frente ao mar, abro os olhos, mas só vejo a escuridão.

Quando era criança, sempre notei algo diferente. Que eu enxergava mal, isso não era novidade. Só não imaginava que era algo tão sério… Como nenhum médico notou?

Tropeções, marcas roxas, baldes chutados para longe, cotoveladas em crianças, em meio a tudo isso, era impossível eu ser denominada apenas como desastrada. Então começou uma longa jornada até descobrir que meu caso era grave. Grave e sem cura.

Retinose Pigmentar. A doença era tão rara que nem os médicos sabiam do que se tratava. Será que era algo tão ruim assim? Não era possível que ninguém tivesse uma informação concreta do meu diagnóstico! Foi então que minha jornada começou…

Resolvi deixar de lado essa história toda. Minha vida caminhava normalmente até aquele momento, então que diferença iria fazer?

Minha visão esvaía-se, pouco a pouco… Nunca enxerguei no escuro, e esse era meu maior medo: ficar na escuridão.

Hoje, sentada em frente ao mar, não é mais a escuridão que me assombra. Aprendi que sentir com o coração substitui qualquer visão. Neste caso ainda me resta a imaginação…

Síntese Biográfica:

Susana Sinhoretti – Estudante do curso de Letras – Inglês/Português, na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Deficiente visual – portadora de Retinose Pigmentar – desde os 15 anos. Procuro divulgar, por meio de redes sociais, as dificuldades de quem possui esta doença.

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