Cantos Seletos do PLC Poesia 2015

plc cantos seletos poemas

Capa da antologia resultado do PLC – Prêmio Literacidade categoria ‘seleção de poemas’:
1º Lugar – Flavio Machado – Cabo Frio-RJ
2º lugar – Bruna Zerlini – São Paulo-SP
3º lugar – Milton Anauate – Brasília-DF

Menções Honrosas (ordem alfabética por autor)
Felipe Rodrigues – Campinas-SP
Iane Souto – Florianópolis-SC
Jose Vicente – Patrápolis-MG
Marcelo Martins – Porto Alegre-RS
Márcio Della-Cella – Ubaíra-BA
Tales Jaloretto – Mauá-SP

PLC2015-Poesia

Prêmio LiteraCidade – 2015 – Poemas – Tema livre

Inscrições até dia 20 de dezembro de 2014
(prorrogadas até o dia 06 de março de 2015)

Categorias: 1 – Livro completo de poemas de (25 a 60 páginas);
2 – Seleção de poemas (máximo 10 páginas);
3 – Poemas avulsos (até 3 poemas de 50 versos);
4 – Poemas breves (até 3 poemas de 12 linhas)

A. Diretrizes
1 – Podem participar autores que escrevem em língua portuguesa devendo enviar poemas sob pseudônimo.
1.1 – Autores residentes fora do Brasil (brasileiros ou não) podem participar, mas devem necessariamente indicar um endereço no Brasil para quaisquer remessas necessárias.
2 – Para as categorias “livro completo de poemas”, o candidato deverá enviar entre 25 e 60 páginas de poemas em verso inéditos ou não, desde que ainda não publicados como livro ou premiados como livro em outro certame.
3 – Para a categoria “seleção de poemas”, o candidato deverá enviar entre 8 e 10 páginas de poemas em versos inéditos ou não, desde que ainda não premiados em outro certame.
4 – Para a categoria “poemas avulsos”, o candidato poderá enviar de 01 a 03 poemas de até 50 versos cada. Apenas para esta categoria exige-se ineditismo, não publicação sob qualquer meio (exceto feed do facebook).
5 – Para a Categoria “poemas avulsos curtos”, o candidato poderá enviar de 01 a 03 poemas de até 12 linhas (contando as linhas entre as estrofes). Não se exige ineditismo.
6 – Para qualquer uma das categorias, os autores podem se inscrever mais de uma vez. Fazendo remessas separadas e com pseudônimos distintos.

-Formatação dos textos: Para todas as categorias os textos devem ser enviados em arquivo de word em A4, margens 2,0×2,0×2,0×2,0, fonte Arial ou Calibri, tamanho 11, entrelinhas 1,5, numerados e com o pseudônimo do autor no rodapé.

B. Inscrições até o dia 20 de dezembro de 2014, 23:59 (hora de Brasília)
(prorrogadas até o dia 06 de março de 2015, 23:59 hora de Brasília)

1 – Todas as inscrições serão recebidas unicamente por email. Escrever no assunto “PLC2015Poesia” seguido da categoria. Por exemplo: PLC2015Poesia1 – para livro de poemas completo. Endereço: editoraliteracidade@uol.com.br;
2 – Todos os textos inscritos devem ficar no mesmo arquivo e deverão ser enviados num mesmo email juntamente com a ficha de inscrição e cópia do comprovante de depósito da taxa de inscrição. Autores que enviarem separadamente textos, inscrições e comprovante, poderão ter seus trabalhos não avaliados ou, tendo enviado em tempo hábil, serão solicitados a fazer a remessa da forma correta.
3 – O mesmo procedimento para cada categoria que o autor se inscrever ou para cada inscrição que fizer;
4 – No ato da inscrição, os autores deverão ceder os direitos autorais dos textos para quaisquer produtos relativos a este certame, bem como se responsabiliza pela autoria dos textos inscritos e por quaisquer outras acusações que se fizerem sobre o mesmo, como racismo, xenofobia…

C. Das inscrições:

1 – A taxa de inscrição é de R$ 75,00 para a categoria 1, R$ 41,00 para a categoria 2, R$ 27,00 para categoria 3, R$ 7,00 para a categoria 4.
2. Para estudantes de qualquer nível de cursos regulares (exceto extensão, cursos de idiomas e outros cursos livres), a taxa de inscrição é de R$ 50,00 para a categoria 1; R$ 25,00 para a categoria 02; R$ 21,00 para a categoria 03.
2.1. Necessariamente deverão enviar cópia de carteirinha estudantil, ou outro documento que comprove esta condição;
3. As avaliações dos inscritos estudantes, ou não, serão feitas indistintamente.
4 – O pagamento das inscrições poderá ser feito através de depósito na seguinte conta: Banco do Brasil, ag 3-5 (três dígito cinto) conta corrente 23.296-3 Titular: Deurilene Sousa Silva;
ou através de cartão de crédito na seguinte página: http://sebodopoema.lojaintegrada.com.br/plc2015poesia
5 – Ficha de inscrição.

D. Premiação

Categoria 1 – Livro de poemas completo

1º Lugar: O original será publicado em livro baixa tiragem dos quais o autor receberá 30 ( + exemplares correspondentes a direitos autorais conforme contrato a ser assinado com a editora). Alguns volumes poderão ser remetidos para autores, periódicos e bibliotecas. Demais exemplares serão colocados à venda na livraria da editora. Certificado digital referente a publicação. Kit com sete títulos da Editora LiteraCidade.
2º Lugar: O original será publicado em livro baixa tiragem dos quais o autor receberá 15 ( + exemplares correspondentes a direitos autorais conforme contrato a ser assinado com a editora). Alguns volumes poderão ser remetidos para autores, periódicos e bibliotecas. Demais exemplares serão colocados à venda na livraria da editora. Certificado digital referente a publicação. Kit com sete títulos da Editora LiteraCidade.
3º Lugar: Certificado digital referente a publicação. Kit com sete títulos da Editora LiteraCidade.

Menções honrosas (Tempestivamente poderão ser concedidas menções honrosas): Certificado digital referente a outorga.

* Tempestivamente a editora avaliará a respeito da publicação do original (em baixa tiragem) dos classificados a partir do segundo lugar. Devendo o autor não se comprometer com outra casa editorial até 90 dias após a divulgação do resultado. * A Editora se reserva o direito de premiar a obra enviada fazendo cortes de textos ou mudando a ordenação dos poemas; * Na capa, será impresso (ou colado em forma de adesivo) um selo com a indicação do prêmio (veja em nossa livraria virtual publicações resultantes de edições anteriores como o livro “Provisórios, de Flávio Machado”); * Dos exemplares colocados à venda, o autor não fará jus a direitos autorais, pois o mesmo liberou os direitos de publicação no ato da inscrição. Entretanto, poderá adquirir exemplares com desconto conforme contrato.

Categoria 2 – Seleção de poemas (máximo 8 páginas)

1º Lugar: Certificado digital referente a premiação. Seleta de poemas será publicada no livro intitulado “Cantos Seletos” do Prêmio Literacidade 2015, dos quais o autor receberá 7 (sete) exemplares. 2º Lugar: Certificado digital referente a premiação. Seleta de poemas será publicada no livro intitulado “Cantos Seletos” do Prêmio Literacidade 2015, dos quais o autor receberá 5 (cinco) exemplares. 3º Lugar: Certificado digital referente a premiação. Seleta de poemas será publicada no livro intitulado “Cantos Seletos” do Prêmio Literacidade 2015, dos quais o autor receberá 3 (três) exemplares. Menções honrosas: Certificado digital referente a premiação. Publicação dos poemas na antologia intitulada “Cantos Seletos” do Prêmio Literacidade 2015, dos quais o autor receberá 01 (um) exemplar.

1 – De cada autor serão selecionados poemas para 6 ou 8 páginas mesmo que tenham enviados mais em quaisquer das colocações. 2 – Exemplares remanescentes serão disponibilizados na livraria virtual da editora. Os autores participantes não receberão comissão de venda, mas terão descontos sob o valor de capa da publicação.

Categoria 3 – Poemas avulsos 1º Lugar: Certificado digital referente a premiação. Kit com cinco títulos da Editora LiteraCidade. Publicação do poema no livro “Prêmio Literacidade 2015”, dos quais o autor receberá 7 (sete) exemplares. 2º Lugar: Certificado digital referente a premiação. Kit com quatro títulos da Editora LiteraCidade. Publicação do poema no livro “Prêmio Literacidade 2015”, dos quais o autor receberá 5 (cinco) exemplares. 3º Lugar: Certificado digital referente a premiação. Kit com três títulos da Editora LiteraCidade. Publicação do poema no livro “Prêmio Literacidade 2015”, dos quais o autor receberá 3 (três) exemplares.

Menções honrosas (serão concedidas até 10 menções honrosas para poemas): Certificado digital referente a premiação. Publicação do poema no livro “Prêmio Literacidade 2015”, dos quais o autor receberá 01 (um) exemplar. Menções especiais (serão concedidas até 10 menções especiais para poemas): Certificado digital referente a premiação. Publicação do poema no livro “Prêmio Literacidade 2015”, dos quais o autor receberá 01 (um) exemplar. Destaques especiais (eventualmente poderão ser concedidos destaques especiais): Certificado digital referente a premiação. Publicação do poema no livro “Prêmio Literacidade 2015”, dos quais o autor receberá 01 (um) exemplar.

*Exemplares remanescentes serão disponibilizados na livraria virtual da editora. Os autores participantes não receberão comissão de venda, mas terão descontos sob o valor de capa da publicação.

Categoria 4 – Poemas breves – Serão selecionados, sem qualquer classificação ordinária, 80 poemas preferencialmente de autores 80 autores diferentes para a antologia digital em pdf intitulada “Poemas breves do Prêmio LiteraCidade 2015”. Caso não haja 80 poemas de 80 autores diferentes, a comissão organizadora poderá efetuar a escolha de um segundo poema de um ou mais autores já selecionados. * Poderá haver publicação impressa de exemplares da antologia conforme a demanda dos autores selecionados. * Poderão ser disponibilizados exemplares na livraria virtual da editora. Os autores participantes não receberão comissão de venda, mas terão descontos sob o valor de capa da publicação.

Observações gerais sobre a premiação: * Os prefácios dos livros da categoria 1 poderão ser sugeridos pelos autores outorgados; * Todos os livros terão ficha catalográfica, registro de ISBN e envio de depósito legal para a Biblioteca Nacional; * Não haverá convite para publicação cooperativada para os livros objeto deste concurso.

E – Demais Informações:
5.1 – A comissão julgadora será formada por pessoas com reconhecida competência na área. Os nomes dos membros serão divulgados junto com o resultado.
5.2 – O resultado será divulgado no blog: premioliteracidade.wordpress.com e no site da editora:http://www.literacidade.com.br
5.3 – Informações pelo email: editoraliteracidade@uol.com.br
5.4 – Os casos omissões serão resolvidos oportunamente pela comissão organizadora ou pela comissão julgadora, ou por ambas, conforme o caso.
5.5 – A editora custeará a postagem apenas dos exemplares dos autores classificados em primeiro, segundo e terceiro colocados das categorias 2 (dois) e 3 (três). Autores com menção honrosa, menção especial ou destaque deverão custear as postagens dos livros.
5.6 – Em até 5 (cinco) dias após o envio dos textos os autores poderão receber confirmação da inscrição. Caso não recebam em cinco dias úteis, podem nos escrever perguntando.
5.7 – As inscrições poderão ser prorrogadas a critério da editora conforme demanda tempestivamente recebida.

Belém, 1º de novembro de 2014
Lene Sousa
http://www.literacidade.com

PLC2014-PROSA – livro completo contos – 1º Lugar

Prêmio LiteraCidade-2014-PROSA / Categoria Livro de Completo de Contos
1º lugar – “De sertão e arraiais: fuso de estórias transversais” – Jucelino de Sales – Formosa/GO

Síntese Biográfica:

Original de São João d’ Aliança na Chapada dos Veadeiros no sertão do nordeste goiano, filho de pais pseudo-analfabetos, Jucelino de Sales nasceu aos 11 de setembro de 1985. Em 2009 gradua-se no Curso de Licenciatura Plena em Letras – Português/Inglês pela Universidade Estadual de Goiás na Unidade Universitária de Formosa. Em 2012 começa o curso de mestrado em Literatura e Teorias Literárias pelo Departamento de Pós-Graduação e Práticas Sociais da Universidade de Brasília – UnB com término previsto para 2014. Participou do último Prêmio Literacidade com obra poética que será publicada pela Editora Literacidade agora em 2014. Atualmente, é professor efetivo de Língua Portuguesa da Secretaria de Educação do Distrito Federal e professor contratado de Linguística e Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Goiás.

Um dos contos do livro:

Inominado

Eu quero uma canção clandestina onde eu possa cantar segredos escondidos, sem revelar a ninguém o lugar secreto. Em dia de sábado eu fico assim, com o sentimento afago. Em sábado eu vivo o medo da solidão, o ócio dos outros dias da semana que o trabalho esconde detrás da palha da obrigação. Eu não quero viver os dias fora de mim, sob a crisálida do dever; eu quero o ópio das manhãs de sábado. Eu quero ver a beija-flor trabalhar as pétalas com o seu néctar. Eu quero uma verdade inventada, enquanto o pássaro alado pulsa as asas ante o sopro do vento.

É sábado, as pessoas se juntam ao redor da mesa. Degustam os manjares sobrepostos sobre a mesa. Pais e filhos fazem piquenique. Constroem sanduíches sob a sombra de uma árvore frondosa envoltos ao círculo de prados. Sábado é a rosa dos dias. É também o dia mais triste. O dia em que desejamos uma segunda-feira para esquecermos. Que desejamos a estafa do trabalho para não lembrarmos que existe uma pessoa dentro da gente. Pois, nos dias de labuta há o recalque, o esquecimento de nós. Em sábado há a retomada do ser, desse perigo. Sábado somos nós, livres da servidão. Em sábado, não precisamos nos preocupar com o trânsito. Em sábado, desligamos o relógio que há em nós. As horas no sábado passam sem o mostrador. E a multidão de anônimos se esvaece no anonimato das casas. Em cada casa há a família tomando o café, amanteigando o pão, todos juntos, confirmando os laços. Eu quero embeber-me dessa canção maravilhosa, dessa canção simples soprada em lumes, em oboé.

Um punhado de alegrias jorra das pessoas, porque o sábado não é mesquinho; ele não precisa da preocupação. Sábado eu retiro a sobrecasaca que reprime o meu corpo. Sábado os velhos caminham nos bosques, nos parques; eles sentam no banquinho, tiram o livro da sacola e lêem, lêem com a preguiça da eternidade. Lêem com a soberania da velhice. As pessoas dão bom dia com o riso estampado na face. A alma da gente conquanto jubilosa torna-se clara por dentro. A aura não é mais um espectro mutilado pelo cansaço e sim, um sorriso complacente com o outro.

Sábado as mães esquecem o relho e esbaldam os filhos com o carinho em extremos. Elas cozinham o doce preferido das crianças. Elas abrem o coração e deixam a fé naufragar na esperança dos dias vindouros.

Sábado os pais perdem o viço da carranca. A mandíbula rija se contrai ante a bagunça do entezinho. O homem senta no sofá, toma o jornal e se embebe das notícias sem a tristeza da matéria de capa. Ele procura na cruzadinha ou na coluna de piadas uma felicidade imediata. Ele toma o filho no colo, faz o cavalinho na perna, dá pinotes, realiza o sonho perecível do menino.

Sábado o filho sempre é mais filho. A criança bagunça mais. Ela se suja toda na areia do quintal. Ela se empanturra de balas, doces, confetes. A criança toma conta de todos; todos somos crianças no sábado.

Sábado é a felicidade que o mundo precisa.

Mas, sábado, para mim, também é o contraste.

O sábado me revela a face mais trágica do ser humano. O espectro sob o qual eu me escondo durante toda a semana. Sábado me torna lembrável o esquecimento de nós. O esquecimento da morte. O esquecimento da engrenagem. O esquecimento de que somos perecíveis e que, se estamos felizes, mesmo vivendo essa felicidade encomendada, essa felicidade de fetiche, há sempre alguém dentro de um corpo roendo migalhas em alguma esquina desse admirável cosmo. No sábado eu descubro que somos mendigos de felicidade; que vivemos mendigando o farelo da essência. Sábado é bom por isso, porque temos a possibilidade de refletir. Essa chance que os outros dias da semana, dias quais estamos atolados no baile da sobrevivência, fenece na gente a sensibilidade dessa celeuma. Se os outros dias estão extrínsecos de mim, em sábado eu me sinto intrínseco. Eu me sinto com discurso para indagar ao bom Deus por que a necessidade de tudo isso. E é um questionamento tão puro, tão sóbrio, tão meu, que me sinto com coragem para continuar vivendo e buscando contritamente uma resposta que ilumine o meu sábado.

Sábado eu sou todo por dentro.

A família se reúne. Todos estão em casa. Eu levanto tarde. Entre as nove e as dez. Meus irmãos já tomaram o café. Pão com margarina. Torta de banana. Ovo frito. Papai está na sala, completamente estirado no sofá, despreocupado, lendo o jornal. Mamãe atarefada na cozinha, por gosto, por prazer, tão meiga nesta árdua complacência. Meu irmão caçula, o Dudinha, feliz com a sujeira, brinca no quintal com o cachorrinho felpudo. A Flávia minha irmã, essa garota vaidosa, eu, no momento, não sei. Ela deve estar no quarto, afrodisíaca na pudicícia, enroscada no namorado. Papai atento do sofá não tira os olhos do corredor. Mamãe diz pra ele parar com essa implicância corriqueira. Meus avôs estão caminhando. Desde que vieram morar com a gente, no ano retrasado, fazem isso todas as manhãs. Eles sojigam o cuidado com a saúde. Eu quero a liberdade imediata. Sem repentinos e retardos.

“Mamãe estou indo à casa do Tiago”.

“Volta pro almoço filho”.

“Não vai fazer besteira moleque”, recomenda meu pai, acabrunhado.

Eu vou à casa do Tiago. Ele é um cara estudioso. É bacana estar com ele. Uma companhia prazerosa. Ele me mostrou o mundo da ciência. Ele vive sempre com cabriolas na cabeça. Tem mania de cientista. Raras vezes ele sorri. Ele é muito calado, na dele. Ele tem pureza de tímido. Eu gosto disso. O Tiago tem uma teoria de que sábado as pessoas se desencasulam. Ele diz dessa forma, que as pessoas se desencasulam (palavra inventada que o Tiago faz questão de reiterar, sempre.): que elas voltam pra casa mais felizes com o poder da reflexão. Com o poder de ver além das relações imiscuídas pela pressa dos outros dias. Assim, para muitas pessoas o sábado termina sendo trágico. Elas descobrem que alguma coisa trincou dentro de si. Muitas cometem loucura. Muitas entram em paranóia. Muitas se suicidam. O sábado tem disso, esses dois lados. Eu acredito no Tiago: isto me fez ler o jornal. Fez-me olhar a notícia e ver nos estampados a tragédia dessa violência indômita. Papai chegou a ficar perplexo com a agonia que eu tomei de ler jornal. Mamãe pensou que eu estava com algum tipo de virose. Eles não percebem que eu cresci. Que eu também quero o meu sábado.

“Alguma vez já passou pela sua cabeça que os nossos destinos são parte de uma mecânica da qual não temos o controle?”, Tiago me desmonta com uma pergunta. Ele, totalmente ambíguo, totalmente incrível.

“Não sei meu bom amigo. Eu só tenho o sábado”.

“Um dia você me responde”.

Tiago me dá o prazo indeterminado. Tiago é admirável. Não se sujeita aos breves desafios. Ele enseja externar o sábado. Ele quer a verdade científica. Eu gosto da maneira do Tiago, mas eu ainda prefiro o mais sublime: o escondido do sábado. Daí, eu fico fitando meus avôs andando de mãos dadas em plena luz do sábado e penso que a eternidade é por um fio. Eu trago a ópera da velhice. Eu estou sempre para os sábados.

E assim, contritos, sentamo-nos à mesa. Papai e mamãe unidos, na mesma cabeceira. Meu avô e minha avó dispostos a direita. Flávia, eu e o Dudinha à esquerda. A mesa repleta de guloseimas de sábado. Aí, mamãe se vocaciona: ela faz pato assado, arroz cremoso, a feijoada que papai tanto adora que descora. Pavê, patê, macarronada. Ela recheia a mesa com aroma de frutas. Há a melancia fatiada, os bagos de uvas, roxas. Há melão, há manga. Há o manancial, a mesa se abre a orgia do sábado. De sobremesa, ah que gozo!:suflê de banana. Minhas pupilas dilatam com o cheiro. É tempo de agradecer a Deus pelo alimento que Ele oferta a nossa mesa com tanta fartura. É sábado, inevitável o pensamento: eu me lembro das criancinhas famintas, das mães calejadas, dos mendigos. A mesa sadia se enegrece com o desespero da piedade. Todos abocanhamos o maior pedaço de cada bago. Todos marfanhamos o estômago com a gulodice. O avô come, a avô come. Papai engole, mamãe engole. Flávia ingere, o Dudinha ingere. Eu degusto cada naco com exaustão para sentir o sabor do maná. Eu degluto cada ferida que se abre na tripa do esfomeado. Eu ressinto o sábado: a indagação do Tiago me afronta com a dúvida do sábado. O dia eleito para nos fazermos a pergunta de nossa validade. Já que o tempo para gente sempre acaba, qual é o vencimento do meu rótulo?

Sábado é o dia de minhas angústias.

Sábado eu me ponho em reflexão.

Sábado passa à tarde. Sábado passa à noite. Sábado, como todos os dias também termina.

E domingo? Domingo existe para a gente se rebelar contra as reflexões do sábado. Domingo é depois do sábado, depois que nos conhecemos. Domingo é a consumação do sábado.

PLC2014-PROSA – livro completo crôncias – 1º Lugar

Prêmio LiteraCidade-2014-PROSA / Categoria Livro de Completo de Crônicas
1º lugar – “Caleidoscópio” – Vicência Jaguaribe – Jaguaruana/CE

Síntese Biográfica:

Vicência Jaguaribe é cearense de Jaguaruana. Formou-se em Letras e tem Mestrado em Literatura Brasileira. Publicou os seguintes livros infantis: Carolina Trovão, seu colar de corais e o raiozinho de sol; A dança dos pirilampos; Na terra do faz-de-conta (contos) e Brincando no ritmo da poesia. Para adultos, escreveu Ancoragem em porto aberto e Histórias sem o “Era uma vez” (contos) e Contato (poemas minimalistas).

Uma das crônicas do livro:

Deus está morto

.

No aforismo 125 da obra A Gaia Ciência, publicada em 1882, aparece pela primeira vez em Nietzsche a declaração de que Deus está morto, pronunciada por um louco, que dizia procurar Deus pelas ruas com um candeeiro aceso. Essa afirmação, mal interpretada, foi alvo de críticas e recheada de conotações negativas e ateístas. Com ela, o indevidamente chamado filósofo do niilismo, ao contrário do que muitos pensam, não dá uma demonstração de ateísmo. Faz uma crítica ao homem moderno, que despreza os valores cristãos, substituindo-os pela razão. No lugar de Deus, ele coloca o homem racional.

Hoje, eu, que não sou nem uma filósofa menor, muito menos Friedrich Nietzsche, repito: Deus está morto.

O mundo inteiro convulsionou-se com o desaparecimento de Steve Jobs, o senhor da era digital, o gênio criativo e visionário da Apple, vencido por um câncer. Choveram mensagens de condolências e de elogios de todas as partes do mundo, até mesmo do fundador de sua arquirrival, a Microsoft. Em carta enviada à família de Jobs, assim se expressa Bill Gates:

Estou realmente entristecido pela morte de Steve Jobs. Melinda e eu oferecemos nossas sinceras condolências a sua família e amigos e a todos os que Steve tocou através de seu trabalho.

Steve e eu nos conhecemos há quase 30 anos, fomos colegas, competidores e amigos ao longo de mais da metade de nossas vidas.
No mundo rara vez vê-se alguém que tenha um impacto tão profundo como o que Steve teve e cujos efeitos serão sentidos durante muitas gerações que ainda estão por vir.

Para aqueles que tivemos a sorte de trabalhar com ele, foi uma honra incrivelmente brilhante. Vou sentir muita saudade de Steve.

A morte do idealizador e criador do ipod e do ipad foi objeto de lamentação do mundo inteiro: (h)ouve choro e ranger de dentes. Manifestaram-se penalizados desde homens de grande força política como Barack Obama, até homens ligados às artes e à indústria de entretenimento, como Steven Spielberg, que alçou Jobs ao panteão dos gênios: Steve Jobs foi o maior inventor desde Thomas Edson. Pôs o mundo em nossas mãos. Sean Park, criador da Napster e sócio do facebook, emprestou-lhe a coroa de louro dos campeões e dos heróis: Inovador, iconoclasta e herói americano.

O povo brasileiro também se sensibilizou com o passamento (como diziam os antigos) com o passamento anunciado de Steve Jobs e enviou, pela Internet, inúmeras mensagens de condolências e admiração. E muitas dessas mensagens foram em forma de charges eivadas do espírito brincalhão e iconoclasta deste nosso povo.

Em uma delas, acima das caricaturas de Jobs, o seguinte enunciado:

Flash Expo “Iphone, Ipod, Ipad, I Jobs”.

Em outra, Jobs aparece no céu, falando com Deus, que tem um Iphone na mão. E diz para o cientista da era eletrônica, mostrando o aparelho:

— Então, rapaz, te chamei porque não consigo mexer nessa coisa, tá todo mundo usando. Meu filho já tentou me mostrar, mas não entendi nada.

Assisti a um vídeo de Maurício Ricardo, que vou transcrever o mais fielmente possível. Usando calça azul e camisa branca, Jobs apresenta-se a São Pedro, no céu, e recebe as boas vindas do santo.

— Seja muito bem-vindo, Mr. Jobs.

Aborrecido, Jobs reclama por não poder usar no céu sua camisa preta. E São Pedro explica:

— Nenhum preconceito. É só para combinar com a decoração.

Dito isso, o santo vai ao computador terminar o cadastro do chegante, mas a máquina trava. E Jobs critica:

— Pô! Não brinca! Aqui em cima vocês ainda usam o Windows?

— A culpa é toda sua. Quem mandou escolher aquela logomarca ? — Responde São Pedro.

— O que é que tem de errado nela?

Então, vestida com uma folha de parreira, aparece Eva falando:

— Pô, rapaz, aquela nossa mordida já nos deu, aqui em cima, muitos problemas.

E Jobs:

— Entendo.

— Mas podemos criar um novo software. Alguma nova ideia? – Era a fala de São Pedro.

— Muitas, São Pedro. Muitas.

— Já esperava. – Conclui o santo porteiro.

Porém, para mim, a charge mais inteligente é uma que traz um afresco da Igreja Sistina. O chargista usa o afresco da Criação de Adão: o Todo Poderoso encostando o dedo no dedo de Adão, que está à sua frente, sentado e nu. Todos conhecem essa pintura. Pois o chargista substitui Adão por Steve Jobs, que aparece com uma de suas invenções na mão — um Iphone? Um Ipod? Um Ipad? Não sei bem. E Deus, no gesto conhecido, encosta seu dedo não no dedo de Jobs, mas no aparelho que este traz na mão.

Quem parar um pouco para analisar essa charge vai perceber que há uma tentativa de substituir Deus por Jobs, ou pôr Jobs no lugar de Deus. A criação que Steve traz na mão e que o gesto de Deus nos faz associar à criação de Adão, na verdade, não é criação do Senhor, mas de Jobs. Então Jobs é a própria divindade? Tem o mesmo poder criador de Deus? Acho que essas interrogações irônicas subjazem à charge.

Por isso repito as palavras do louco de Nietzsche, com conotações diferentes, mas nem tanto: Deus está morto.

***

Conto de um leitor viajante – Stella Maria Ferreira

PLC-2014-PROSA / 1º lugar – contos avulsos

Conto de um leitor viajante

As férias chegaram. De tão cansado, não planejara absolutamente nenhuma atividade. A ideia do deslocamento, no entanto, me perseguia há cerca de uma semana. Lembrei de Baudelaire e de sua visceral necessidade de estar onde não estava, de viajar para os lugares mais distantes, de geograficamente esquivar-se de pensamentos que naquele instante de repouso pareciam ameaçadores. Estava inquieto. Não que isso fosse estranho. Eu era naturalmente inquieto. Seriam os livros que sempre tinha à mão? Era o que a mãe repetira por toda a minha adolescência. Dizia que estava sempre ‘no mundo da lua’. Eu me irritava e gritava que era poeta das idas e vindas; era artista. Ela ficava ainda mais nervosa. Era o feijão…e eu, o sonho. E sonho ‘não se colocava na mesa’, dizia. É…hoje trabalho num escritório de advocacia e a poesia ficou de lado. Momentos de inquietação como os desta manhã, porém, lembravam-me de mim. Antes. Quando tudo era poesia e eu me deslocava om facilidade para onde queria em minha mente. Peguei o caderno de anotações que estava na cabeceira e escrevi: “Escapar para me encontrar. Viajar para saber de mim.”.

Troquei de roupa. `A saída, o porteiro me perguntou algo sobre meu retorno – haveria manutenção do sistema de gás naquela tarde. Desculpei-me dizendo ser difícil marcar o horário da volta. Pediria uma outra visita para o apartamento se houvesse desencontro. Como saberia da volta se não sabia para onde iria? Queria a poesia da incerteza, a rima do desengano, o verso do talvez. Não sentia receio algum. Queria respirar aquele ar amorosamente artístico uma vez mais.

Era um barzinho simpático. Pedi café e biscoitos enquanto lia algumas dezenas de prospectos de viagens, passeios e produtos à venda colecionados ao longo do ano. A ilha parecia convidativa. Sorri ao lembrar de Alan de Botton e a descrição de suas férias numa ilha paradisíaca em A arte de viajar. Não seria uma má ideia fugir para outros ares. O aroma do café fez com que eu fechasse os olhos e, então, lá estava eu chegando na ilha. As malas sendo trazidas para o imenso quarto.

Uma porta dava saída direto para uma linda praia. Sentei-me na areia morna. O som alto das gaivotas, que pareciam brincar, era encantador e repousante. O vento assobiava o texto que eu ansiava escrever. “A nota da vida incompleta aguarda o acorde na dependência do próximo passo. A força de ousar. Sem a escolha de parar. Sem o medo no olhar. A carne na pena. O sangue na tinta. Poesia pronta.”.

Abri os olhos e o caderno de notas estava na minha frente, sobre a mesa do barzinho e as palavras que eu ouvira na ilha do panfleto ali escritas. A arte me encontrara. A procura durara anos e ela foi perseverante e fiel.

Fui para casa. O porteiro perguntou-me se o passeio fora bom e eu disse ter sido a melhor viagem da minha vida. O Des Esseintes de Huysmans sentado num café viajou para Londres. E eu, para uma ilha. Pares na arte. Pares na vida.

Síntese biográfica:

Stella Maria Ferreira é Mestre e Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ. Conta com cinco artigos publicados em livros; uma resenha publicada na Revista ‘Poesia Sempre’ da Fundação Biblioteca Nacional e um livro recentemente publicado, intitulado ‘Café literário com Wilde e Nietzsche’. Atua como professora de Inglês na Rede Municipal do Rio de Janeiro.

Umas cartas de amor e revolução – Airton Souza

PLC-2014-PROSA / 1º lugar – Crônicas avulsas

Umas cartas de amor e revolução

Bom dia Nega,

aqui quem te escreves é o Negu. Tô te escreviando esta missiva, que tens o destino de ti alcançar antes mesmo de mim (pelo menos é o que espero e matuto aqui no pensamento clandestino), a custa de dois motivos importantes. O primeiro tu já deve de ter consentimento. É isso mesmo que estais a imaginar neste teu íntimo aflorado e bem conhecedor das regras do amor. É que bateu uma imensa e desmedida sordade de ti. O outro motivo é porque eu não poderia ficar parado vendo toda esta multidão de todos os tipos de gente nas ruas, ficar acomodado naquela cabana a esperar dias melhores.

Ademais, tu no meio da multidão sorta é um perigo. Eu ti conheço bem e sei do que é capaz. Tenho medo do que possa fazer. Ainda mais que tu nesses últimos tempos andou lendo muitas poesias.

Hoje, já faz dois dias que saíste de casa. Saiu só pra comprar alguns tumates e um punhado de farinha pro armoço e, só agora me manda um bilhete dizendo “vemprarua, vê se traz uma dúzia de flores brancas e um litro de vinagre, assinado, tua Nega”. Eu sem nada saber, liguei o rádio para ouvir as notícias do que estava a se suceder e, não deu outra. Só ai começei a entender o porquê de tua ausência.

Já tô aqui, meio ao povo. Feliz viu em ver todos na rua. As cores diversas enfeitam minhas pupilas quase incrédulas.

Em minhas mãos trago o que me pediu o vinagre e uma dúzia de flores brancas. Só te peço que fique tranquila, pois, deixei a cadela jurema e as crias todas bem resguardadas, molhei as prantas e tranquei a porta e a janela de nosso recito direitinho igual tu gosta.

Ando a perguntar por ti. Recebo notícias vagas que esta meio a multidão. A única coisa que sei é que tu tá toda embrulhada em uma bandeira do Brasil. Mesmo assim, sinto o teu cheiro e vou te encontrar sem demora.

Te trago boas novas, este grito de dor, deu no rádio, que já chegou a se espalhar por todo o “brasilzão” de meu Deus. Até mesmo no exterior já nos dão as mãos a gritar junto com nós outros brasileiros e povos diversos.

Além do vinagre e das flores brancas, tomei a liberdade de levar meu coração sem cessar e sem cansar batucando em esperanças.

Espero logo-logo te encontrar meio aos nossos irmãos. Vê se te protege das balas de borracha e dos lacrimogêneos que esses nossos outros irmãos, por instante abastardos, estão a nos dar como consolo neste momento de sofrimento por dias melhores e, que também servirão para eles as conquistas aqui alcançadas.

Um cheiro em teu cangonte. Aqui é teu Negu que muito tem orgulho de ti.

[ … ]

Boa tarde Nega, aqui é o teu Negu de novo. Tô meio preocupado. Nem pergunte o porquê de minha preocupação. Tenho ânsia em te encontrar meio ao povo revolucionário. Mas, até agora nada de te ver. Sabes muito bem que tenho ciúmes exagerado de ti, a custa do nosso amor de longas datas. Mesmo assim, meio a esse mudarél de gente, pode ter algum cabra já de olho em tu.

Agorinha a pouco perguntei pra um moço que ia passando rente a mim, que tempo era esse. Tenho em mim que ele não entendeu nádica de nada. Pois, virou pra mim com um semblante feio e respondeu, aparentando esta com raiva ou despeito (não sei bem ao certo) e, disse “é tempo de revolução meu chapa. Tempo de mudança. Esse país tava dormindo em um sono profundo e agora acordou. O gigante acordou!!”. Suas palavras vibraram em meus ouvidos, assustando as borboletas. E olha que eu só queria era saber que hora era aquela já.

No céu o sol esta pendendo numa quentura desmedida, até parece que ele está com raiva também. As minhas pernas? Essas nem se fala. Doloridinhas todas. Penso que é por causa da má circulação do sangue. Também quanto tempo sem dar uma caminhada de pelo menos 200 metros? E, só hoje já elas já andaram quase por uma vida inteira. Mas, sei que é preciso continuar a caminhada. É pelo bem de nosso país e o teu também é claro!

Talvez tu tenha recebido a outra missiva que te enviei pela manhã. Só estranhei tu não ter respondido nada. Nem um bilhetinho se quer para teu Negu confortar esse coração ansioso e agora revolucionário. Quem sabe ainda não te alcançou as letras que te enviei pela manhã? Assim mesmo não queria arriscar. Por isso estou te enviando esta outra.

A tarde tá caindo de pressa. Agora mesmo teve um cabra que me disse a hora. Esse bem entendeu a minha pergunta a respeito do tempo. Por isso tinha eu estranhado o sol. Já é mais de três e meia da tarde.

O litro de vinagre que me pediu já está pela metade. Tive que dar um pouco para algumas pessoas que estavam precisando. As flores? Essas não. Ainda estão intactas. São só tuas.

Acho lindo está cantoria toda… #vemprarua #vemprarua VEM!!!

Meu coração esperançoso vai pisando o chão a cada passo dado. Caminhar só com as pernas é pouco para mim agora. É preciso caminha também com o coração cheio de esperança. Antes do cair da noite espero te encontrar pra juntos nós caminhamos juntinhos neste momento histórico.

Um cheiro de teu Negu que é doido varrido por ti e pelo teu chamego.

[ … ]

Boa noite Nega, aqui é teu Negu. Vou logo te dizer que não tô nada feliz. Até estive antes de te enviar esta missiva. A questão é que está é a terceira que te envio só hoje. Acabo pensando que tu não recebeu nenhuma das anteriores, pelo menos para servir de consolo a mim mesmo. Agora se tu recebeu e não me enviou nem um bilhete, tem algo de errado entre nós. O certo é que o tempo passou e a minha preocupação só faz é aumentar.

Tô preocupado, sem notícias tuas. Olhando aqui o tempo, vejo que a noite já despencou e, nada de eu te encontrar até agora. A única referência que tenho de ti, além de teu cheiro que eu vou sentir a distâncias, é que tu está toda enrolada com uma imensa bandeira do Brasil sem o lema positivista na faixa branca “Ordem e Progresso”.

Tudo aqui meio a multidão está lindo. Mas, cá entre nós, estou estranhando estes homens com umas máscaras brancas na cara. Faz parte é? Eu prefiro ver todos com a cara à amostra. Nega, estou a sorri muito é das frases nos cartazes. Cada frase hilariante e, olha que eu nem trouxe o meu cartaz.

Agora entendi que não é só pelos R$ 0,20 (centavos), que o povo veio pra rua. É por muito mais que isso. O que também tô gostando de ver são as pessoas no alto dos prédios, ou mesmo nas casas, cada qual com bandeira e lençóis brancos, postos nas portas e janelas. Os aplausos? Estes são muitos.

Ainda conservo comigo a dúzia de flores brancas que me pediu no bilhete. Porém, imploro que não fique com raiva de mim a custa do litro de vinagre. Pois, este já foi esvaziado devido à carência e a urgência. Levo o litro vazio só para te comprovar que não estou a mentir. Do jeito que tu é arretada, se eu cogito jogar este litro vazio de vinagre no lixo antes de tu ver, é bem capaz de dizer que eu estava mentindo e, que não trouxe nádica de nada de vinagre. Fique sossegada, ao menos ele serviu para outras pessoas necessitadas e foi usado a custa de boa causa.

Se de tempo e tu me enviar algum bilhete antes de te encontrar, faça-me o obséquio de responder, caso tu saiba, o que é ser pacífico meio a isto tudo? Ser pacífico depois de tudo o que aconteceu faz parte do processo? E porque eles não foram pacíficos antes mesmo de comenter as suas transgressões? Desejo não te escrever mais nem uma carta por hoje. Além das pernas doloridas, agora os dedos também já querem calejar de tanto te escrever.

O que eu quero mesmo é logo te encontrar. Te dar um longo abraço. Sentir teu cheiro bom. Então, até breve minha Nega, uma bicota de teu Negu.

[ … ]

Bom dia Nega, já bem deve saber que aqui tem tá a escrever é o teu Negu. Já nem atrevo a chamar mais o que estou sentindo neste momento de raiva ou mesmo preocupação, isso a custa de tua ausência e caladez. Neste instante, somado, lá se vão três dias longos dias sem te ver. É inominável este sentimento passadiço, ou sei lá o quê. Nem ao menos sei se é de fato um sentimento.

Com esta quentura de sol que deu nesta manhã, ferve junto o meu pensar. Já não sinto mais as pernas. Para escrever esta missiva, que é a quarta, os dedos estão quase a desfalecer. E só estou a fazer, porque é a última de fato que te mando. Seu eu não te encontrar desta vez, vou as delegacias ver se te encontrar por lá. Caso, não te acho, irei aos necrotérios (cruz credo). O sol faz meus olhos fumegar, na ânsia de te ver o mais breviar de momento.

Já penso aqui com minha cachola, que a cadela jurema e as nossas crias todas deve de tá sentindo nossa falta. Lembra tu que nós nunca demoramos tanto fora de nosso recinto. Que é humilde, mas, é nosso. E lembra, que nem foi preciso nós precisar deste programa “Minha casa, minha vida”. Ainda bem, porque o nosso casebre é do nosso programa “nossa casa, nossa vida”, que nós conseguimos a custa destas invasões de meu Deus.

Tô logo te avisando antes que tu inventa uma zanga, as flores murcharam todas. Algumas até já perderam suas pétalas. Deve de ter caído no desespero na hora das correrias em que vinham aquelas bombas de enfeito moral. Já o litro de vinagre vazio eu o deixei em uma dessas ruas ai quaisquer e, que tem um estranho nome de um desses personagens da história deste país tão desigual.

Agora a pouco uma bala, que dizem que é de burracha, passou zunindo no pé de meu ouvido,mas atingiu um companheiro que vinha rente a mim. Tu precisava de ter visto, uma sangria sem fim. Tenho horror a sangue como tu bem sabe. Por isso, não fiquei para comprovar a veracidade da bala, se era mesmo de burracha ou não. Agora sim… vou te dar um cheiro daqueles.

A madrugado foi de puro terror e frio. Muito lacrimogêneo… muita pimenta… muitas bombas que tem esse nome engraçado que te falei agora a pouco… “efeito moral”.

Espero em Deus pai que nada tenha ocorrido com tu. Senão a coisa não vai prestar não. Se tá ruim, vai ficar é pior.

Minha Nega, o teu Negu não tá bem não com sordade de tu. Tenho pra mim que estamos perto um do outro. Pois, posso sentir o teu cheiro de azeite de babaçu com alecrim. Acho que tô até te enxergando. Nem acredito que tu veio pra revolução naquela saia que eu tanto amo te ver trajando. E não é que é tu mesmo nega. Tá linda enrolada nesta bandeira verde e amarelo. Que linda que tu tá nega. Tão revolucionária.

Síntese biográfica:

Airton Souza é poeta, professor e autor de alguns livros de poesias e, tem participação em mais de 55 antologias literárias. É ainda membro da ALSSP – Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense, com sede em Marabá. Atualmente é cronista na revista Foco Carajás e no Jornal Opinião. Já venceu alguns prêmios literários. Publicou “Rua Displicente” e “Face dos Disfarces” pela Literacidade.